A neura da desinfecção

Em tempos de COVID-19 cuidados de higiene e loucura se confundem.

Criamos rituais mil, tentando prevenir o pior, tentamos, através de rituais, procedimentos e etapas controlar o presente e o futuro. Álcool em gel, álcool 70%, sabão, troca de roupa, borrifadores, máscaras, luvas, áreas de descontaminação, óleos, perfumes, saídas, entradas…

Aqui em casa, no hall de entrada do apartamento, onde normalmente tiramos os sapatos, usamos um cabideiro onde deixamos as roupas que usamos para sair na rua. Logo na entrada da casa, um borrifador com um litro de álcool 70% (já quase acabando, para desespero da torcida). Depois do borrifo de álcool nas mãos e nas mochilas (entramos seminus em casa), corremos vestimos a roupa de usar em casa e lavamos a mão e o rosto.

Depois de vestidos e desinfetados, passamos um hidratante na mão, nos cumprimentamos e compartilhamos as últimas notícias e retomamos a vida.

Li, ontem que, tudo isso não adianta nada senão forem lavados os cabelos antes de dormir. O cabelo é local aonde o vírus se manteria ativo confortavelmente por muitas horas e alcançaria o rosto. Li também, que o álcool em excesso resseca a pele e diminui a defesa dela contra o vírus. Li também que tem gente passando saliva nas traves e seguradores dos ônibus e trem para que outras pessoas sejam contaminadas.

Assisti um vídeo de uma senhora muito entendida, sugerindo o uso de garrafas pet para proteger o rosto em lugares cheios. Recebi um outro vídeo de um senhor americano dizendo que o vírus é um truque do governo e da mídia para nos tirar de circulação enquanto arquitetam coisas malignas para controlar o planeta. Fiquei sabendo por um colega médico que ele tem 30 colegas infectados, muitos dos quais, com as devidas precauções, se mantém firme trabalhando.

Vi uma postagem no Facebook de que a China já teria desenvolvido a cura. Vi outra de que Cuba, sem nenhum contaminado, já teria desenvolvido a cura.  Recebi um link de um suposto abaixo assinado para que todos os trabalhadores suíços recebessem uma ajuda de CHF1600,00 até o final do ano. Vi outra em que uma empresa farmacêutica teria desenvolvido uma vacina. Vi um vídeo de um caldo de cebola com alho que, além de parecer delicioso, ainda evitaria a contaminação.

O que me assusta mais é que, mesmo gostando de ler, estou em casa, acordado em torno de 15 a 18 horas por dia. Cozinho para a família, escrevo para um dos blogs, estudo alemão com a filhota, falo com a família pelo telefone, no Brasil e na Suíça, saio todo dia caminhar distante da cidade por uma hora e, ainda me sobram 7 a 8 horas no dia: Facebook e Instagram.

No Facebook só se fala do vírus, parte da culpa é do Lula, parte da culpa é da Dilma, o Trump é culpado, o presidente da China é culpado e o Bolsonaro é culpado. Dependendo do feeds, isso muda, todos passam a ser heróis ou culpados dependendo do time do qual o amiguinho copia as Fake News.

A ausência de uma referência mais confiável (acho o BAG, a agência de saúde do governo suíço muito mascarada, lenta e perniciosa aos interesses dos planos de saúde), fico a mercê do Deus dará das informações.

Junto com tudo isso, minha esposa está 24/7 nos grupos de brasileiros e das famílias no Whatsapp, mais informações desencontradas.

Há duas semanas, na minha caminhada pela floresta, meditei muito no assunto.

Me lembrei da epidemia de H1N1.

Me lembrei do quanto o álcool em gel fez a diferença e criou, de um modo geral hábitos mais saudáveis na comunidade Curitibana. Quase todos os ambientes sociais passaram, desde então a oferecer álcool em gel para as mãos.

Lembrei também das minhas aulas de saúde básica e comunitária na faculdade: lavar as mãos!

Lembrei também que, em termos microbiológicos, a contaminação não é algo sensível. Não se sente o momento da contaminação. O momento em que o agente biológico invade o organismo, não é sentido. Nós podemos até lembrar onde pode ter acontecido. Mas, não sentimos o vírus entrando no corpo. Além disso, um determinado nível de contaminação é bom, para preparar o imunológico e, ao mesmo tempo, perigoso e, fundamentalmente inevitável.

É possível, que nós, na Suíça, que tivemos um Lockdown tardio, estejamos contaminados. Nós paramos no dia em que atingimos 1200 infectados. O Mesmo dia em que o Brasil com 360 infectados parou. Somados a isso o demora da reação da população (mais uma semana) a Suíça parou eficientemente com 4500 contaminados. É possível que, facilmente, 80% da população tenha tido contato com o vírus.

Isso não é garantia de adoecimento, nem de saúde.

Tentei pensar, como psicólogo, qual seria o ponto divisor entre a higienização e a loucura? Qual seria a hora para entrar em pânico?

Ganhei de presente da minha esposa um fraquinho de álcool 70% para levar comigo. Levo e borrifo no manete do carrinho do supermercado. Da última vez, a senhora do meu lado pediu para que eu borrifasse no qual ela usaria. Achei funcional, usei a caneta de tocar no celular na tela do autoatendimento do Migros. Achei funcional.

Mais do que isso é desnecessário. Simplesmente porque não trará mais proteção. Mais do que evitar tocar nos corrimãos e seguradores (principalmente no transporte público) não evitará mais a contaminação.

Qualquer ritual é disfuncional. Tudo o que você “sinta” que está descontaminado é absolutamente inútil. Quando lavamos a mão e “sentimos” a “descontaminação ou limpeza”, o que estamos sentindo na verdade é o efeito adstringente do sabão na mão. O álcool dá uma sensação similar, mas mais intensa. Mas, isso não representa DESCONTAMINAÇÃO, isso representa adstringência.

Aprendi nas aulas de anatomia que, a cada ação efetuada com a luva cirúrgica, ela deve ser descartada, assim sendo, andar de luva cirúrgica não resolveria o problema, você sairia por aí descartando as luvas. Mais engraçado ainda, você passaria a coçar o rosto com a luva suja.

Mas, evitar tocar o rosto sem antes lavar as mãos, funciona muito. É só você lembrar de uma coisa simples, sujeira na mão é diferente de sujeira no olho. As luvas são para os médicos.

Então, qual a linha que divide a higienização segura da loucura: simples, basear-se no manual, na técnica. Quando você “acha” ou “sente que ou falta de” você está na loucura. Quando você segue o protocolo, você está sendo eficiente. Mas, lembre-se que o protocolo doméstico de quem está respeitando a quarentena e não tem doentes em casa é muito mais brando do que o protocolo médico.

Ainda fica para mim a segunda pergunta, qual é a hora para o pânico?

A resposta é nunca! Quem entra em pânico morre pisoteado. Quem entra em pânico não é o primeiro a sair, é o primeiro a ser esmagado de encontro a porta ou as paredes. Então, respire fundo quando a sua cabeça se agitar. Depois, acompanhe comigo os números:

Na Suíça hoje, são cerca de 9000 (23.03.2020) casos confirmados. A maior ou a segunda maior taxa per-capita do mundo. Mas o que isso representa de fato?

Representa que em uma população de 8 milhões de 750 mil pessoas cerca de 9000 pessoas estão contaminadas. Um número que cresce cerca de 1000 a 1200 por dia, é verdade. Mas, para uma parcela gigante desses contaminados, o COVID-19 é vivido como uma gripe muito forte. Quantas gripes fortes você já teve em sua vida?

É um número crescente, mas ainda tão pequeno de contaminados que, para que se possa fazer uma média, é preciso trabalhar em grupos de 100 mil pessoas. Uma comparação simples é pesquisa eleitoral nas eleições nacionais. Para se tirar uma média nas eleições, os grupos de pesquisa precisam ser de só 5 mil pessoas.

Mesmo na Itália, com uma população de cerca 66 milhões de pessoas, com 60 mil pessoas contaminadas, não é uma estatística para pânico. Mas, apara entrar em ação com firmeza!

Todo esse processo de bloqueio da vida comum e de proibição do contato social é apenas uma medida preventiva. Uma estratégia global de tratamento. E, particularmente, após conversar com pessoas que entendem do assunto, é possível que esse isolamento siga pelo menos até junho.

Então, desencane, fique em casa e lave a mão.

Raul de Freitas Buchi

1 thought on “A neura da desinfecção

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