A reabertura

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Tempos estranhos

Estamos em tempos estranhos, disso não há dúvidas. A presença desse vírus de comportamento levemente incerto e de consequência médicas graves, levou o mundo à mudanças drásticas, rápidas emergenciais visando a diminuição na necessidade de leitos hospitalares e de mortos.

Essas ações emergenciais incluem a preparação de espaços médicos especializados, grandes investimentos em pesquisa, uso de equipamentos de proteção pessoal no dia a dia, ações rápidas e estratégicas de governantes e, desde fevereiro, no isolamento pessoal.

Reas here in English!

Isolamento pessoal

O isolamento pessoal é o tema que mais tem me levado a refletir. Até porque, também estou isolado. Na verdade, escrevo em uma quinta-feira de manhã. Não coincidentemente, o quarto dia de uma abertura organizada pelo governo suíço para acontecer gradativamente em três etapas. Então, este é a primeira semana de reabertura.

O isolamento social me interessa, também, porque adoro gastar meu tempo na natureza. Sou fã de caminhadas ao ar livre e de fotografias de paisagens. Um dos motivos, inclusive, de eu ter trazido minha vida para a Suíça, é sua coleção incrível de paisagens. Assim sendo, o efeito desse isolamento social sobre o meio ambiente me interessa bastante.

Como psicólogo de formação (hoje não atuo mais, sou auxiliar de cozinha) e filósofo por hobby, também achei interessante pensar o isolamento social do ponto de vista dos sujeitos, dos indivíduos isolados.

Interação familiar

A interação forçosa entre familiares não importando a realidade ou a fachada de seus relacionamentos. Ou seja, não importa o quanto o casal ainda se ama, se os adolescentes são rebeldes, sem às 12 horas de dedicação ao trabalho e a escola, como conviver o dia todo com essas pessoas?

O terceiro tema, de interesse quase irrelevante, é o posicionamento do poder nessa situação. Governos, mesmo os mais democráticos, foram levados a decisões ditatoriais. A imposição do isolamento social como uma ferramenta drástica de controle de consequências, levou governos à ações rígidas e unilaterais frente as suas populações. Mas isso ocorrendo em um momento da vida ocidental, aonde governos populistas e fascistas estão novamente na moda através do nacionalismo.

A natureza

Em termos de meio ambiente, a diminuição de seres humanos circulando livremente tem resultado em velozes e impressionantes mudanças nas circunvizinhanças das cidades. Aqui da minha janela é visível a mudança na qualidade do ar. Literalmente, os tons de azul do céu mudaram. Além disso, o cheiro do ar, mesmo nesse período de seca, está mais agradável e é possível sentir o cheiro das flores e do estrume usado para adubar os campos.

No Feeds do meu Facebook e do meu Instagram, as páginas e grupos que eu sigo tem compartilhado infinitos vídeos e fotos de animais se aproximando e até fazendo uso dos espaços urbanos. Com certo receio, coiotes, lontras, elefantes e, até animais já considerados extintos, passeiam e correm, alguns até brincam nas ruas, parque e quintais das cidades.

Uznach

Aqui onde moro, como temos uma área de preservação no entorno da cidade, não vi essa mudança. Moro próximo da floresta, e apenas os pássaros tem sido um pouco mais atrevidos. Mas cervos e veados foram filmados e fotografados em diversas cidades suíças.

Os seres humanos saem, a natureza volta. Os seres humanos diminuem ou mudam a forma como usufruem o planeta e a natureza se recupera. Isso parece uma coisa boa, mas é absolutamente triste. Nosso egoísmo, nosso egocentrismo, sempre tão perversos, são facilmente vistos na nossa relação com os iguais. Despejamos caminhões de batatas e verduras na beira estrada, jogando fora toneladas de alimentos, por conta de US0,10 na variação do preço. Mesmo sabendo que 1/3 da população não terá o que comer nos próximos dias. Isso sem falar da corrupção, das guerras por poder e por religião.

Somos sabidamente perversos com nossos iguais. Mas, nestes meses de isolamento social, tem sido possível observar, como somos mesquinhos com o resto dos seres vivos do planeta. Ocupamos, ordenada ou desordenadamente, os espaços do planeta. Sujamos, usamos, exploramos, plantamos, queimamos esses espaços. Concretamos e asfaltamos tudo exatamente com o mesmo tipo de raciocínio egoísta e egocêntrico com o qual deixamos de dar lugar para o senhor de idade no ônibus.

Voracidade

Ocupamos tudo sem antes observar se mais algum ser vivo fazia ou faz uso desse espaço. Nesse período de isolamento social está sendo marcante o retorno da natureza aos seu espaços originais. Como aconteceu em Chernobyl nos últimos 35 anos. A natureza se ocupa de pegar de volta os espaços danificados que deixamos vazios. Tem sido muito difícil torcer a favor da espécie humana depois de ver o vídeos dos bodes montanheses brincando no parquinho.

Claro que não torço pela extinção do ser humano, as pessoas que eu amo e eu mesmo fazemos parte desse grupo. Mas, por outro lado, não tenho esperanças de que esse período nos leve a uma reflexão sobre nossa postura de ocupação sobre o planeta. Pelo contrário, acho que quando as portas se abrirem, aqui na Suíça a partir dessa semana, as pessoas irão com mais sede, com mais ganância, com mais ambição atrás do consumo e das batalhas por poder e riqueza. Vão tentar “recuperar seu tempo perdido”, tomar de volta seus espaços perdidos.

Pegar de volta

Aqueles centímetros de avanço que a natureza deu nesses dois meses serão pagos em quilômetros de sujeira, consumo e devastação. E pior, em questão de dias ou horas, tomaremos de volta e ainda expandiremos mais nosso egoísmo planetário.

A Suíça é um país signatário e cumpridor dos acordos ecológicos globais. Com isso, a qualidade do ar aqui, costuma ser boa. Mas quando o vento sopra do norte, pela minha janela de face norte, posso ver o céu gradativamente perder seu tom azul em troca do ar marrom e poluído trazido do sul da Alemanha. Nas últimas semanas isso não aconteceu, o céu esteve azul e cheio de pólen da primavera.

Natureza II

Acho que na próxima semana, já veremos a poluição chegando gradativamente do norte. Acho que ela virá com a mesma velocidade e intensidade com a qual o mercado econômico precisa se recuperar.

Por sorte, como a dispersão do vírus foi dada em tempos diferentes em cada continente e em cada país, o lockdown também foi feito em tempos distintos. Assim, a abertura também será gradativa e talvez tenhamos tempo de criar ou apoiar ferramentas que ajudem a conservar essa natureza que ganhou espaços.

Talvez não.

Raul de Freitas Buchi

1 thought on “A reabertura

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