Alegria é um sentimento interessante. Como sou naturalmente rabugento, não tenho muito contato com ela, e sempre fico curioso a cerca das pessoas que a estampam no rosto. O aparecimento da alegria, para mim, depende de momentos muito específicos, uma piada, um encontro, uma música, um evento. Mas, conheço muita gente alegre, espontaneamente alegre, como se, viver fosse o que basta. Inclusive ao meu redor, enteado, esposa, mãe, alguns amigos.

Pessoas espontaneamente alegres, leves, de riso fácil, de trato afável e personalidades flexíveis, conversadoras. Pessoas a vontade com a vida e com o processo de existir. Como se fosse existindo e curtindo essa passagem do viver. Minha esposa, passado o tempo da primeira xícara de café, para ela é como se a vida fosse uma tarde no parque. Meu enteado acorda cantando e dançando. Minha mãe, prefiro até não conviver muito, ela é daquelas pessoas que ri e agradece!!!

Não entendo que bicho mordeu essa turma. Posso mudar a colocação, não sei que estrutura neurológica tem um hiperfuncionamento que gera essa estranha percepção em relação ao ambiente.

Concordo, existem uns quais que usam a alegria sempre de forma a seduzir, chamar a atenção, manipular, enfim, controlar o ambiente. Ainda, assim, a alegria sem a presença do entusiasmo, aquela força motriz que gera uma vitalidade muito bacana, me parece um pouco com uma continuidade da emoção gerada pela última piada ouvida. Algo barato e pobre. Mas, para alguns, a faísca que desperta essa emoção é muito pronta, muito fácil de ser acesa. Aí, me passa uma impressão de leviandade, de descompromisso com o peso e o fardo da vida. Afinal, “viver é sofrer”, já dizia minha vó.

Mas, isso é a minha velha e amarga rabugice falando. A alegria existe e é um sentimento tão intenso quanto a própria tristeza, mesmo nessa descrição que a faz parecer leviana. Aliás, o toque da alegria, o movimento que ela provoca no corpo, gera lágrimas e choro assim como a tristeza.

Tristeza e alegria parecem ser pontos opostos na prancha de uma gangorra. O equilíbrio e o balanço, para que seja divertido e intenso, precisa estar nos extremos da prancha, assim, a elevação da gangorra é sempre mais alta e intensa. Pessoas de choro fácil (falo aqui dos soluços e lágrimas, não de mimimi) são pessoas também propensas a grandes gargalhadas. O oposto também é verdadeiro. Pessoas emocionáveis vivem a vida com mais intensidade, sem precisar pular de paraquedas para sentir a vibração do existir.

Encantam-se, riem, choram. E, nessa passagem de emoções e expressões emocionais, equilibram a relação entre os estímulos que o mundo oferece e as sensações e emoções que esses estímulos geram. Como se as lágrimas e as gargalhadas zerassem o sistema, mantendo um estado de equilíbrio sem que se precise diminuir a sensibilidade para com o mundo.

Não existe uma fórmula para se ser uma pessoa alegre. Mas, uma relação leve com a vida, com menos cobranças, menos julgamentos, menos ruminações mentais preocupadas, geram um ambiente mental mais favorável. A capacidade de se encantar com as coisas do mundo também favorece: reconhecer a beleza das coisas, o encanto que elas oferecem.

A gratidão também parece exercer um papel importante. Pessoas que aceitam trocar a avaliação mental que gera auto-piedade por uma avaliação que gera gratidão, tendem a tornar-se pessoas mais propensas a alegria. Vi muito isso em grupos de A.A. e em paciente que passaram por cirurgias bariátricas. Essa postura também é associada a tratamentos médicos mais bem-sucedidos. Não entendo bem, mas, seria algo como, ao invés de sentir pena de si mesmo pelas dificuldades, passar a enxergar que, cada dia tem seus encantamentos e, por eles vale a gratidão.

Pessoas mais afetivas, também parecem mais propensas ao sorriso. Pessoas que abraçam, que expressam seus sentimentos em palavras e toques (gentis), acabam tendo como consequência o recebimento de mais afeto. Como se a demonstração de amor pelo próximo, propiciasse ao próximo a possibilidade e liberdade de também expressar seu amor e carinho. Portanto, as pessoas mais afetivas acabam se sentindo mais amadas e, isso, parece ser uma experiência bastante positiva e propiciadora de alegria.

Então, se eu fosse resumir, a chave para uma vida de alegria seria:

1 – Aceitar a tristeza;

2 – Encantar-se com a vida;

3 – Gratidão;

4 – Gerar afeto.

Mas, o que somos treinados para fazer na nossa educação é:

1 – Evitar a tristeza para evitar o sentimento de vulnerabilidade;

2 – Traçar metas de conquista, conquistar, para depois ficar encantado e satisfeito;

3 – Ganhar, para depois agradecer;

4 – Esperar o amor passivamente.

Ou seja, somos treinados a criar empecilhos, condições e dificuldades em relação a alegria, como se ela fosse uma recompensa a ser conquistada ou algo a ser evitado. Mas, ela é parte de nossas respostas biológicas básicas, como a fome, a sede e o sono. E, como um regulador do organismo, tem um papel fundamental nos processos da vida. A alegria remove o estresse, o cansaço e diminui a sensação de dor. Ela facilita a aproximação da esperança e fortalece os vínculos com o existir.

Sem mais a dizer sobre isso.

Raul de Freitas Buchi

Joy

Joy is an interesting feeling. Since I’m naturally grumpy, I do not have much contact with it, and I’m always curious about the people who stamp it on the face. The appearance of joy, in my life, depends on very specific moments, a joke, an encounter, a song, an event. But I know many happy people, spontaneously joyful as if living was enough for it comes out. Even around me, stepson, wife, mother, some friends.

People spontaneously joyful, light-hearted, easy-going, flexible, conversational personalities. People easy-going with life and with the process of existing. As if they were existing and enjoying this passage of life. My wife, past the time of the first cup of coffee, to her it is as if life were an afternoon in the park. My stepson wakes up singing and dancing. My mother, I prefer not to live much near her, she is one of those people who laughs and thanks to life all the time!!!

I do not understand what bug bit this gang. I can change the placement, I do not know what neurological structure has a hyperfunction that generates this strange perception in relation to the environment.

I agree, there are some people who always use joy in order to seduce, attract attention, manipulate, and ultimately control the environment. Still, joy without the presence of enthusiasm, that driving force that generates a very good vitality, seems to me a little bit like a continuation of the emotion generated by the last joke heard. Something cheap and poor. But for some people, the spark that stirs up this emotion is very ready, very easy to ignite.

There, I feel an impression of lightness, of disengagement with the weight and burden of life. After all, “to live is to suffer,” my grandmother used to say.

But, that’s my old soul, bitter grin talking. Joy exists and is as intense a feeling as sadness itself, even in that description that makes it seem lighthearted. In fact, the touch of joy, the movement it causes in the body, generates tears and tears as important as in sadness.

Sadness and joy seem to be opposite points on the board of a seesaw. Balance, for fun and intense life, must be at the ends of the board, so the rise of the seesaw is always higher and more intense. People of easy crying (I speak here of sobs and tears, not of baby’s whimper) are people also prone to loud laughter. The opposite is also true. Excitable people live life with more intensity, without having to jump from parachute to feel the vibration of existing.

They chant, they laugh, they cry. And in this passage of emotions and emotional expressions, they balance the relationship between the stimuli that the world offers and the sensations and emotions that these stimuli generate. As if the tears and the laughter were to clear the system, maintaining a state of balance without having to diminish the sensitivity to the world.

There is no formula for being a joyful person. But a light relationship with life, with fewer charges, fewer judgments, less worried mental ruminations, creates a more favorable mental environment. The ability to be enchanted with the things of the world also favors: recognizing the beauty of things, the charm they offer.

Gratitude also seems to play an important role. People who agree to change the self-pitying mental assessment by a transformation that generates gratitude tend to become more prone to joy. I saw this a lot in groups of A.A. and in patients who undergo bariatric surgeries. This posture is also associated with more successful medical treatments. I do not understand well, but it would be something like, instead of feeling sorry for oneself for the difficulties, to begin to see that, each day has its enchantments and, for them, it is worth gratitude.

More affectionate people also seem more prone to smile. People who embrace, who express their feelings in words and touches (gentle), end up having the consequence of receiving more affection. As if the demonstration of love for the neighbor, propitiated to the neighbor the possibility and freedom of also expressing his love and affection. Therefore, most affectionate people end up feeling more loved and, this seems to be a very positive experience and conducive to joy.

So if I were to summarize, the key to a life of joy would be:

1 – Accept the sadness;

2 – Enchantment with life;

3 – Gratitude;

4 – Generate affection.

But, what we are trained to do in our education is:

1 – Avoid the sadness to avoid the feeling of vulnerability;

2 – To set goals of conquest, to conquer, to later be enchanted and satisfied;

3 – Win, then thank;

4 – Waiting for love passively.

That is, we are trained to create hindrances, conditions, and difficulties in relation to joy as if it were a reward to be won or something to be avoided. But, it is part of our basic biological responses, such as hunger, thirst, and sleep. And, as a regulator of the organism, it plays a fundamental role in the processes of life. Joy removes stress, tires you reduce the sensation of pain. It facilitates the approximation of hope and strengthens the bonds with existing.

No more to say about it.

Raul de Freitas Buchi