Comer e rezar

Diversas religiões, entre elas o catolicismo, o hinduísmo e a umbanda, reconhecem na alimentação e nos alimentos uma relação espiritual e de comunhão com a vida, com os iguais e com o divino.

Na umbanda como no candomblé, entende-se que na relação dos vegetais e dos animais com as diversas forças da natureza às quais estão sujeitos e, das quais dependem para se desenvolver e crescer, uma parte da força desses elementos climáticos e eventos geofísicos fica armazenada no vegetal/animal que com ele interage.

O pé de milho fica exposto na chuva, no sol, no vento, no solo e retira da relação com esse meio os nutrientes que precisa para crescer. Esse nutriente fica acumulado em seu interior e, quando o consumimos, estamos tomando para nós o nutriente que foi elaborado pela planta.

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Na visão dessas religiões, isso teria alguma relação com poderes superiores, numa relação de dar e receber, e teria como resultado a gratidão pelo alimento recebido e o pedido pelo alimento necessário no futuro.

Mais do que isso, o processo de preparação desse alimento para o adequado consumo humano e divino, poderia fundir esses nutrientes com outros, transformando seu sabor e potencializando as qualidades nutricionais e de sabor.

Para alguns, a relação da mão e do corpo, que manipulam a preparação desses alimentos para a melhor elaboração do consumo nutricional, teria um efeito direto sobre o poder nutridor do alimento, da refeição ali preparada. Isso seria diretamente influenciado pelas emoções presentes na mente e na expressão emocional do manipulador alimentar.

Enfim, sem nerdices e complicações: quando se cozinha com amor, a comida fica mais gostosa. E isso não parece ser só uma propaganda de comida, os Yorubás, os Indus, os Budistas, os cristãos, os judeus e mulçumanos, todos eles têm algum tipo de relação entre sua religião e os processos alimentares (para não dizer rituais alimentares), dietas, abstenções, entregas, reservas…

O Foucault falaria do controle dos corpos e das vontades, mas o Foucault é muito chato, só eu gosto dele, vamos falar de amor.

Então, tendo em vista que, em boa parte das civilizações contemporâneas, a mesa cheia e bem-posta, toda família reunida, abundância de sabores, cores, cheiros e pratos, parece ser a regra para agregar, agradecer e perpetuar os valores, crenças e amores familiares e de amizade e ainda comungar com o divino. É fácil entender essa relação entre cozinhar com amor e fortalecer laços.

Em Curitiba (cidade de onde venho), confraternizar é igual a comer. Churrasco, pizza, cachorro-quente, pasta ou, no mínimo uma pipoca no cinema. Em Curitiba não se convida alguém a entrar em casa sem se oferecer um café (com ou sem leite, açúcar ou adoçante, talvez um chá, tem uma bolachinha ótima, quer? Quer algo para beliscar?). É como se a comida, com seus poderes mágicos trazidos da cozinha, fossem garantir a boa mediação das relações interpessoais e a bem-aventurança do convidado e do anfitrião.

E é isso mesmo. Pessoas que comem juntas desenvolvem laços de cumplicidade e de amizade que transcendem os contratos relacionais pré-estabelecidos. Literalmente, quando você vai ao Happy-hour com seus colegas e toma uma cerveja compartilhando a porção de batata-frita, se torna um pouco mais amigo a cada vez. A batata-frita tem uma liga que amplia esses laços.

Assim, da mesma forma, os almoços de domingo que, geralmente recheado com conflitos, confina em si todo um ritual de aproximação dos entes queridos. Esse ritual, muitas vezes se inicia no meio da semana com a definição do cardápio e compra dos ingredientes e termina do domingo, com a briga pela louça. Em geral, a matriarca da família, já no sábado à noite, começa os preparativos iniciais, marinando ou o pré cozendo alguns pratos.

Me lembro da minha ex-sogra, a Célia.

Além de uma figura simpaticíssima, cozinhava com a alma. Passava, muitas vezes, a semana inteira planejando o que cozinharia para os netos. Gerava anúncios constantes durante a semana, criando expectativas em minha filha (e em mim também, engordei 22 quilos nos primeiros dois anos desse casamento, boa parte devido ao almoço de domingo). Começava a cortar a cebola e o alho às 7 horas da manhã e, pelo menos uma vez por mês, cozinhava os tomates no sábado para poder fazer tomate pelado para o molho de domingo.

Uma dedicação e uma motivação de quem transcende o simples preparo de alimentos e alcança uma espécie de virtuosidade, uma plenitude na atividade executada que leva quase um aspecto meditativo em si.

Uma dedicação e entrega que refletem um investimento afetivo imenso de si para com o outro. Como se, a cada minuto mexendo na comida que está sendo preparada, fosse mais um minuto em que os “temperos de amor” pudessem sair pela pele e marinar o que está sendo preparado.

Esse investimento não é diferente do investimento feito pela mãe-de-santo, pelo monge, pelo pajé. Durante o processo de cozinhar, vai se mentalizando o deleite de quem saboreia o prato (seja um deus ou neto), vai se mentalizando o choque surpreendente que será vivenciado por aqueles que comerem a iguaria. Durante o preparo, vai-se tateando e programando a recepção do amor e da gratidão investidos no cozimento estampado no rosto depois da primeira garfada.

Assim como a mãe-de-santo que pergunta aos seus iniciados “está com uma cara ótima, né?”, a Célia, parava no canto da mesa, depois de colocar o último prato na mesa bem-posta “e, aí? O que que você achou?”. Medindo o quão impressionados estão, ou estarão os consumidores dos alimentos preparados. Como se perguntassem: “percebem quanto amor? Percebem quanta gratidão? Imagine quando você morder!!!”

A minha atual sogra não cozinha, mas prepara um café da tarde. Conhece os melhores presunto da região, seleciona os pães mais bonitos, conhece as melhores panificadoras da sua região. Investe esse mesmo carinho e esse mesmo amor. Enfim, tem a mesma intenção investida sobre a refeição, nesse caso, não preparada, mas organizada.

A intenção é colocar o coletivo perto de si.

E a lição trazida pelas religiões é que a comida tem o poder de manipular os deuses, a comida tem o poder de purificar o corpo para o paraíso, a comida prepara para a oração, a comida… tem poderes mágicos.

E se, para as religiões ela tem poderes mágicos, imagine para a família, para os amigos, para os colegas, reunidos em torno de uma refeição para confraternizar sobre a vida.

O poder dessas reuniões é tão grande que, sagas familiares inteiras, de 3 ou 4 gerações da família, são decididas em almoços de domingo. Contratos milionários são decididos em jantares de negócios. Casamentos são ofertados, aceitos e negados à luz de velas (que estão postas na mesa de jantar).

Entre os meus casamentos eu aprendi a cozinhar. Cozinho o básico bem feito, não surpreendo. Mas, com o pouco que faço, consigo manter a pequena família unida de segunda a sexta-feira para o almoço. Muitas vezes, aos domingos, consigo trazer mais gente e, lá em casa, pilotando o fogão com essa ideia do amor e da gratidão, consigo deixar a turma satisfeita.

Para quem está acompanhando minha aventura com a família aqui na Suíça, naquele outro blog, essa semana me despedi do MCDonalds. Começo na segunda-feira, dia 23 de setembro em um restaurante em Zürich. Vou trabalhar como assistente de cozinha do Chef Davide.

Vou cozinhar.

Cozinhar, além de levar aos deuses, unir a família, ainda abre portas!!

Raul de Freitas Buchi

1 thought on “Comer e rezar

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