COVID-19

Esse não é um texto sobre estatísticas ou sobre regras de sobrevivência. É mais um desabafo angustiado por ser humano.

Estamos em um momento de crise mundial. Curiosamente, o tamanho e a intensidade da crise, derivarão exclusivamente da nossa atitude perante o problema que enfrentamos.

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Como em outros momentos da nossa história, a postura individual somada, será a força coletiva que podemos usar de barreira para conter a crise.

Aqui na Suíça, a determinação do estado é de bloqueio total. Apenas serviços imprescindíveis de suporte a comunidade continuam funcionando. Todo o resto está fechado. O bloqueio é quase total.

A intenção do estado não é exatamente tirar as pessoas da rua. Mas evitar o contato social. O vírus que agora nos ataca tem como hospedeiro conhecido o ser humano. Então, estamos para o corona vírus, como o Aedes Egipty está para a dengue. Com um agravante, o Convid-19 mata ou pelo menos adoece seu hospedeiro.

Assim sendo, assim como se fazem as campanhas para cuidar do quintal e evitar o mosquito da dengue, agora a campanha é para evitar o humano do Convid-19. Literalmente, essa campanha não é para te proteger do vírus, mas para proteger as outras pessoas do vírus que nós, potencialmente, carregamos.

Para qualquer pessoa de bom-senso essa informação seria o suficiente. Mas, pessoas de bom senso, apesar de serem a maioria, não passam de 75% da população. Vejamos o que eu quero dizer com exemplos simples e carregados de amargura.

Nasci em 1976, fiz o primário em colégio municipal (você encontra esse relato em outras postagens). Uma escola que, nos idos 1981 do século passado era bastante puxada e carregada com serviços médicos e sanitários de apoio aos alunos e a comunidade.

Aprendemos no primário que, devíamos lavar as mãos várias vezes ao dia, principalmente antes das refeições. Aprendíamos a escovar os dentes após as refeições. Aprendíamos a tomar banho todos os dias. Lavar as mãos e escovar os dentes eram lições dadas dentro da sala de aula em uma pequena pia que ficava disponível no canto da sala de aula.

Lavar as mãos, escovar os dentes e tomar banho (usando os adequados produtos de higienização) é tão importante ou mais do que a matemática, a interpretação de texto e a geografia.

Aprendíamos também aonde construir o poço artesiano em relação a fossa sanitária. Aprendíamos como cuidar da vida para não pegarmos determinado vermes e infecções. Aprendíamos os rudimentos do sanitarismo comunitário e da profilaxia. Aprendíamos como funcionavam as vacinas, quais eram, quando deviam ser tomadas, em que ordem e para que peste cada uma delas servia.

Enfim, aprendíamos de forma clara e engajadora, como a ação individual de cuidar de si resultava em uma gigantesca ação comunitária pela preservação da vida e de sua qualidade. Aprendíamos que em Manaus ou Curitiba, tanto fazia, estavam todos sendo vacinados, estava todos aprendendo o que deveriam fazer para que o espaço comunitário fosse o mais favorável à vida o possível.

Me lembro de irmos coletar água da pia, do filtro e da poça para olhar no microscópio a presença e quantidade de vida existente nas gotículas de cada uma das amostras. Protozoários, bactérias, algas estavam todos lá, nadando vorazmente em busca de um aparelho digestivo para infecionar.

Eu tinha 10 anos, era um aluno um pouco melhor do que a média, mas sabia tudo isso décor e salteado. Morria de medo de tudo isso porque eu roía as minhas unhas. Então, achava que seria um dos primeiros a morrer ou pegar uma dessas pragas.

Mas, tudo mudou, depois de 2008, com a explosão da falta de leitura e o crescimento do fundamentalismo pentecostal na Europa e nas Américas, o planeta voltou a ficar plano e as vacinas viraram um truque do governo (nem tudo é culpa dos bíblico, a falta de leitura é o problema fundamental, gera falta de crítica real).

Assim, paralisia infantil, sarampo e coqueluche viraram a nova moda. Problemas há muito tempo resolvidos, graças a leitura de uma única e muito desatualizada bibliografia, passaram a causar menos medo do que o sal que cobriu Sodoma (ou Gomorra, nunca sei).

As atitudes individuais que geravam um bem maior coletivo, começaram, com o medo da vacina da gripe, a serem extintas gradativamente até que, hoje, 12 anos depois, passamos a ter novamente epidemias de sarampo.

Claro, escrevo isso de cima do meu rancor enclausurado. Estou em casa com a família a dois dias. Saí duas vezes para rapidamente comprar coisas no mercado (que continua aberto) cujas as prateleiras no fim do dia estão vazias e, de manhã estão repostas. Escrevo isso do alto da minha amargura de ver meus vizinhos passeando de bicicleta e levando as crianças no parquinho.

Falo isso do alto da minha indignação com a reunião que meu vizinho fez com seus amigos na varanda. Falo isso do alto da inveja que sinto dos paulistas e cariocas reunidos na praia. Falo isso a partir da raiva que sinto da Fakenews escritas em blogs diversos e, irresponsavelmente compartilhadas nas redes sociais por pessoas que não se dignaram de abrir o link para ver se funcionavam.

Falo isso porque o que espalha o vírus é o ser humano. Um bicho, ou o único bicho, mesquinho, egoísta e mal-educado. Falo isso poque, no país com a segunda melhor qualidade de vida do mundo, as pessoas correm esvaziar as prateleiras do mercado por medo de ter que tomar banho depois de cagar. Mas, essas mesmas pessoas, quando estão no mercado, não cobrem o rosto quando espirram ou tossem em cima de seus carrinhos de bebês.

Falo isso porque vi os vídeos dos italianos cantando em suas varandas. Conclamando a humanidade de seus vizinhos. Tentando convocar a todos para que se humanizem. Falo isso porque vi as fotos de satélites de uma Pequim sem humanos, com céu limpo. Vi as fotos de uma Veneza sem humanos, com água translúcida e limpa. Falo isso porque vi, com os meus olhos castanhos sem graça, os corvos e esquilos no centro de Zurique, comendo e passeando em paz.

Os humanos não tem mais espaço no planeta.

Ficar em casa (manter a distância social) e manter a higiene pessoal adequada é só e é tudo o que podemos fazer para que o coletivo humano, mesmo que não estejamos incluídos nele, possa prosperar e seguir adiante.

Raul de Freitas Buchi

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