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Escrevo aqui, com muito carinho por todas as pacientes que atendi na minha carreira de psicólogo. Escrevo aqui para todas as amigas e amigas das amigas. Escrevo aqui para minha filha, minha mãe e e para minha esposa. Estou revoltado e o texto é longo e carregado.

A situação é muito séria e sensível para ser tratada levianamente com postagens espontâneas no Facebook. Assim sendo, resolvi escrever no blog um texto mais denso e bem pensado. Não sei se ficará bom, mas espero que pelo menos apresente minhas reais condolências, minha sede de justiça e minha indignação.

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Vamos começar pelo óbvio: “não existe estupro culposo”.

Assim sendo, e começando pelo óbvio, sou a favor da castração total para crimes sexuais. As gonadas e o pênis devem ser removidos do corpo do criminoso condenado. E ele deve assistir enquanto os porcos do chiqueiro se refestelam com seus apendices.

Para mim, racista deve levar chute na boca até ficar sem os dente e criminosos sexuais devem ser castrados. Não sou juiz nem advogado, então não sei se minhas vontades fazem parte de uma possibilidade jurídica ou não. Mas sou psicólogo (não atuo mais, mas é difícil tirar a floresta de dentro do Mogli) e como tal, não tenho neutralidade, eu tenho um lado que eu apoio, acolho e, junto, entristeço e sofro buscando a justiça e a recuperação.

Atendi, ao longo dos meus 17 anos de consultório, inúmeras vítimas de violência sexual. Vítimas de avós, de pais, de tios, de padrastos, do álcool. Vítimas de amigos, vítimas de boa noite Cinderela e etc. Garanto que a viela escura não é o lugar aonde o perigo reside, mas sim em casa, no lar, entre os “queridos”, no espaço de segurança.

A dor que é de todos

Acredito que, no Brasil, não existe mulher, transgênero e homossexual que não tenha passado por alguma forma de abuso sexual. Das piadinhas, as passadas de mão no carnaval, até imolação e estupro, acho que nenhuma pessoa desses grupos passa ilesa pela vida. O abuso é fatídico, ele é eminente para esses grupos. Ele é uma verdade presente e perene.

Apesar do machismo (principal causador dessa doença social) estar presente em maior ou menor grau em todos os lugares do mundo, a certeza da punição, a certeza da justiça acaba por fazer de alguns países lugares mais seguros e respeitosos. Mas, mesmo em países islâmicos, mesmo em tribos selvagens, mesmo em tempos de guerra a violência sexual não é ou era comparável aos níveis de loucura que se vive no Brasil.

Então, em nenhum lugar do planeta, em nenhum momento da história, cometem-se tantos crimes sexuais como no Brasil, com tanta certeza de impunidade e com tanto suporte social. Nem nos tempos bárbaros, nem nos tempos das guerras romanas a insegurança sobre o próprio corpo era tão grande. Vive-se no Brasil uma espécie de campo de concentração da impunidade. Não há mais crimes que sejam punidos, não importa a instância do julgamento que se consiga alcançar.

Em uma situação como essa, podemos dizer que o Brasil se tornou uma nação abusadora. Se levarmos em conta outros crimes além dos crimes de ordem sexual, a coisa fica mais evidente ainda. Nessa nação de abusadores, de criminosos, a vítima é a culpada.

“Deixou a bolsa abeta”, “ Ele colocou a carteira no bolso de trás”, “quem mandou não ter seguro”, “Com essas fotos no Instagram, não poderia ser diferente”, “onde já se viu, nessa idade ir sozinho na banco”, “como é que não tem código de segurança no Whats-up”.

Crenças trocadas

Frases dessa natureza, tão corriqueiras em nossos julgamentos sobre as vítimas, demonstram claramente um distorção coletiva de valores. Uma distorção coletiva de crenças. Transformamos as vítimas em culpados, transportamos a responsabilidade e culpabilidade pelo dolo do abusador para a vítima.

Com essas frases é possível ilustrar essa inversão de crenças, não se acredita mais que a vítima é quem sofre. Mas sim, que a vítima, por não estar seguindo determinados padrões de comportamento evitativos (que não funcionam), é a responsável pelo crime. A vítima é o agente provocador do crime. Assim, pensamos nós que conversamos no bar, assim pensa o policial que investiga, o promotor que acusa, os jurados que condenam e o juiz que determina a pena.

Há 15 anos atrás, enquanto eu pagava uma conta no banco (no andar térreo do prédio onde eu tinha o meu consultório) entraram no meu consultório e roubaram o meu PC. Peguei as imagens da câmera e fui na polícia. O escrivão me fez três perguntas: “Você sabe onde encontrar essa pessoa?”, “Você deixou a porta destrancada?”, “Você não tem secretária?”

Com essas três perguntas, ao invés de vítima de roubo, o policial me transformou em responsável pelo crime. O burro que deixou a porta destrancada.

Eternos amigos do rei

E isso não é uma coisa atual, meu avô materno tinha um ditado que talvez você conheça: “vão-se o anéis e ficam-se os dedos”. Esse ditado é típico para a vítima, para a pessoa que “deu mole”, que “deu bobeira”, ele diz: “conforme-se, você perdeu o que construiu”.

Guardadas as devidas proporções, nos crimes sexuais é feito o mesmo. Um escrutínio sobre a vítima é feito, a vida dela é devassada, aberta, rasgada e, todos os pontos questionáveis são usados contra ela e em favor do estuprador. Esse, por sua vez, tem sua identidade resguardada e protegida e, sua privacidade e história são protegidas do público.

Não há estupro culposo, como não há roubo de carteira culposo, como não há desvio de verba hospitalar culposo.

O crime é sempre doloso, sempre há a intenção de causar o dano. Acidentes não são dolosos.

Não consigo entender, não consigo aceitar essa transformação da vítima em responsável em nenhuma situação e em nenhum tipo de crime. A vítima é inocente, quem comete o crime é o ator da barbárie. Ele decide pelo mal a ser causado ao próximo.

No caso do “boa noite Cinderela” há inclusive o planejamento prévio. O transporte da droga que foi comprada com antecipação, foi dada a vítima sob o discurso da paquera, da boa conversa. Há a quebra voluntária e planejada de vínculos positivos que estão sendo criados com a vítima.

Que revoltante isso.

Em Curitiba há uma espécie de tradição, atirar pó químico de extintor em travestis que se prostituem na rua. Em Curitiba matam-se travestis que fazem programas. Isso quer dizer que o sujeito (em geral homem) marca o programa, é recebido como cliente e quebra esse vínculo, cometendo a barbárie. E o jornal publica a entrevista do promotor de justiça:“Ela se prostituía, sabia do risco”.

Inversão da culpa.

E o que mais me impressiona é a absoluta falta de autocrítica. O sistema judiciário, imbuído da função de reparar o dano social sofrido, faz chacota e desconsidera a dor e o sofrimento da vítima. Usa de subterfúgios rasos e discursos de ódio para invocar uma falsa moral sobre o comportamento da vítima. Faltava o juiz perguntar: “por que você dormiu após consumir a droga de forma inadvertida?”, “por que vocẽ faz uso fruto do seu corpo como bem entende?”.

Mas volto a ressaltar, a situação vivida por essa moça, nesse julgamento, é só um dos eventos. A mistificação do crime, da culpa e do dolo no Brasil são um problema crônico e permanente. Um problema contínuo desde de os tempo do império e dos amigos do Rei de Portugal. E digo mais, a impunidade característica dessa moral de culpabiliza a vítima, é uma moral irreparável.

Não há esperança de mudança.

Com 44 anos, que tenho agora, assisti inúmeros caudinlhos e FernandoCollors cavalgando em seus cavalos da correção dos caminhos morais do país, todos bárbaros disfarçados por discursos iluministas. Assistimos recentemente isso, partidos inteiros sendo eleitos em função de reconstruir a moral na política e, em 60 dias de poder, tudo isso indo para o ralo. No Brasil, o crime compensa e compensará sempre. E, desculpe-me falso patriota, isso só existe no Brasil.

Nesses termos tão baixos, tão pessoais, tão imundos como esses, isso só existe no Brasil.

Que triste e revoltante isso.