Dia das mães

Brinca-se em psicologia, que a culpa é sempre da mãe. E é!

Ela é o primeiro entreposto entre o ser biológico recém-criado e o meio ambiente ao redor. Sendo então, necessariamente, a intermediadora da relação entre a nova vida e o mundo.

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A variação de repertório sócio afetivo e de elementos culturais da mãe terá uma variação profunda no grau de investimento e desenvolvimento da nova criatura. Isso não garante o sucesso na criação, nem a diminuição de trauma. Mas, definirá uma linha na relação entre os dois seres e, mais tarde, entre o ser e o mundo.

Não existe uma regra, mas Spitz, definia a mãe funcional como aquela que é “suficientemente boa” para que a criança se sinta amparada e amada. Mas, “suficientemente má” para que a criança tenha vontade de desenvolver autonomia e sair para o mundo.

Então, a boa mãe é aquela que ama, mas ajuda o(a) pivete a desenvolver repertório próprio para dar conta de viver no mundo. Mãe não precisa dar presente, não precisa aguentar choro, não precisa visitar na clínica e nem na cadeia. Mãe não é quem se sacrifica, mãe é quem nutre por tempo o suficiente para poder empurrar a cria ninho a fora.

Ser mãe não é igual a amar, nem igual a se sacrificar. Mãe é ter coragem o suficiente para deixar o filho sofrer o que precisa para crescer, sabendo que o ninho continua lá. Ser mãe é entender que a coisa mais importante é a cria e que, para que a cria dê conta da existência, ela precisa de amor, amparo e frustração. Mãe não é um bicho que faz a cria sofrer, mas é aquela que, com amor e segurança, ensina que a vida é difícil não importa de que espécie animal você seja, e que é preciso dar conta.

Se as crias voam e a mãe fica só. Não há drama, há sucesso. Se as crias ficam e a mãe sacrifica sua vida por elas, há fracasso, apego e exaustão.

Com tanta responsabilidade sobre esse processo, a chance de erro é grande. Na verdade, é inevitável. E, aí entra a tal da terapia, ajustar esses pequenos desacertos. Depois de 18 anos ajustando desacertos, posso dizer com certeza qual é o presente perfeito de dia das mães: entenda que você foi feito para voar (humanos especificamente, para caminhar) e tome o rumo da sua vida. Visite-a uma vez por semana e todos os domingos com amor. Quando visitá-la, conte da sua vida, escute o que ela conta sobre a vida dela, trate-a como uma igual, riam juntos e abrace a velha.

Quando ela estiver precisando de cuidados, cuide dela sem que ela perceba, sem se vangloriar disso. Pague o asilo ou a enfermeira, sem fazer alardes. Cobre os esquecimentos com bom humor e alegria, mas não deboche nem brigue nem finja que eles não existem. Mantenha a relação de autonomia, por mais que você cuide e tenha que fazer quase tudo por ela, mantenha-a sempre sentindo-se independente, digna de si.

Ser mãe é difícil, entenda isso e agradeça pelo esforço. Ser cria não é igual a ser um cuzão, é igual a ser fruto que cai perto do pé.

Raul de Freitas Buchi

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