Gestão da vida pelo medo

Sidarta Gautama, o Buda, 400 anos antes de Cristo foi o fundador do Budismo. Não conheço muito da religião deixada por ele, além daquilo que preciso para determinadas compreensões da filosofia contemporânea. Mas, acho interessante para começar esse post, saber que ele deixou apenas 4 leis escritas. Só sei a 1ª: “A vida é sofrimento”.

Essa inclusive é a única lei que eu sei decor. E, pior, nem sei se está certa. Mas, para mim, ela explica a essência da vida: “se nada em contrário for feito, a dor, a fome, a peste e a senescência serão velozes em exterminar a vida”. Não veja isso como um discurso apocalíptico, falo de elementos muito mais simples e individuais.

Se você não levantar a bunda do sofá e se empenhar em fazer as coisas e, ao mesmo tempo, nenhuma pessoa fizer por você, a morte será certa e ligeira. É preciso servir-se da água para matar a sede, é preciso servir-se da comida para matar a fome, é preciso ensaboar-se para tirar os parasitas da pele, é preciso cuidar-se para que a velhice e a morte não te tomem antes dos 30 anos.

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A vida é o exercício da atividade de viver e, essa atividade de viver, compreende desde a fuga do sofrer (morte) até a construção do bem viver. Então, o abandono da força combativa e construtiva, com a vestimenta de uma vida desistida e deprimida são a garantia de sofrimento.

Na psicologia cognitiva costumamos traduzir isso por um lema muito simples: “a inatividade atrai mais inatividade”. Ou seja, se você está parado, a tendência será permanecer parado, até que exerça uma forte potência da vontade e se ponha em atividade. Claro que, “a atividade gera atividade”.

O Buda e a psicologia contemporânea estão certos: se nada for feito, então o sofrimento é garantido. Enfim, desde a manutenção básica da vida, até a explosão de momentos de benção e felicidade exigem uma atitude ativa, exigem uma atitude potente frente a vida. Mesmo a mais passiva das meditações é uma atividade, portanto, uma ação e, portanto, exige potência e atitude (até porque, fazer exercer o domínio da própria mente exige muita energia).

Nesse aspecto, deprimir é morrer. Nesse aspecto, deixar a vida te levar e entregar-se a ela, é uma atitude importante frente a vida, absolutamente oposta a deprimir-se. Entregar-se é agir sobre a vida sem ansiar pelo resultado, é semear e cuidar da plantação, sem sonhar ansioso pela colheita. É aceitar que a semeadoura dará seus frutos, na medida que as ações necessárias para isso foram tomadas, assim como a chuva cai do céu quando chove (ação necessária) e a terra gira (ação necessária) para formar o dia e a noite.

Se nada for feito, o sofrimento é certo. A morte é certa. A mais correta e verdadeira das leis dadas por alguma religião. O sofrimento é a base de qualquer movimento no processo de existência. O leão caça pelo sofrimento gerado pela fome, nós construímos prédios para fugir do sofrimento das intempéries e compramos casacos de pele para fugir do sofrimento causado pela frustração de “não ter” o que se demanda.

Diferente da filosofia e da psicologia francesa do início do século XX, não é o vazio que nos move. O vazio não existe, há sempre um preenchimento básico, um recheio essencial feito pelo sofrimento. Quando há o abandono de si, não se cai no nada, se cai na angústia e no sofrimento, e isso é muito diferente do nada.

A presença desse essencial é absolutamente negativo em termos de uma experiência emocional, ou seja, é puro desprazer. Portanto, não é vazio, é preenchido de dor. E, essa dor seria o ponto zero. Seria o marco zero do viver. A partir dela, tudo precisa ser construído, necessitando de potência, de esforço, mas também, de planejamento e direção. Caminhar à exaustão, sem uma direção, sem um objetivo, levará, também, ao sofrimento.

Assim, potência e ideal devem forjar um impulso direcionado e construtivo para que o sofrimento seja deixado de lado, sempre, temporariamente. O planejamento, traz a pré-imagem daquilo que seria atingido pela aplicação da potência de uma determinada forma. Numa previsão clássica de causa e efeito, “se eu fizer isso, obterei aquilo”.

Essa pré-imagem gera a motivação, ou o movimento. É nessa antecipação dada pela pré-imagem que se deposita a fé (entrega) de que o movimento, a ação, a atitude têm valor, vale a pena, vale o esforço.

Aqui, chegamos ao ponto principal deste post: a pré-imagem pode ser positiva ou negativa. Ou seja, a força que gera o movimento, pode ser baseada no medo de mais sofrimento: “se eu não for trabalhar, não conseguirei pagar minhas contas e vou morar na rua”. Assim como, essa força pode também ser baseada na expectativa de mais prazer: “se eu trabalhar e poderei comprar meu carro”.

Perceba que o positivo e o negativo são respostas contra do sofrimento, mas o comando cognitivo que gera o movimento é diferente. No primeiro a crença básica é: “não posso sofrer”. No segundo a frase básica é: “quero mais prazer”. Mas, em ambos, se foge do sofrimento.

Um, tem como meta não chegar em um lugar de dor, outro tem como meta chegar em um lugar de satisfação

Gerir a vida pelo medo de sofrer, como no primeiro caso, é o mais comum. Sair de uma vida de miséria na infância e ter medo de voltar para ela, é uma poderosa força motriz para os empreendedores. Ouvimos constantemente essas histórias. Meu avô materno saiu do sertão e veio para a cidade, meu pai saiu de uma casinha nos fundos da casa de seus avós, ambos construíram um mundo para não voltar para a miséria. Para não voltar ao sofrimento.

Gerir a vida através de metas positivas é um treinamento possível e as vezes necessário. Permite viver com menos ansiedade e, claro e óbvio, menos medo. Mas, exige um treino. Exige o conhecimento e crença nos próprios potencias para que se construa um projeto com metas e objetivos factíveis para a vida. Projeto que possam ser realmente atingidos. Coisas reais, necessárias, plausíveis. Então, é preciso saber qual o seu real potencial, é preciso saber como dirigi-lo e que direção dar para ele. Gerir a vida com metas positivas é mais difícil do que gerir pelo medo, exige mais conhecimento de si, mais rigidez no comportamento e, principalmente muita confiança no resultado.

A pessoa que sofre de depressão perdeu essa fé nos resultados e estagnou no sofrimento. Em alguns casos, a paralisia é causada por metas positivas inatingíveis, outras vezes é por uma sensação real e incontornável de não se é capaz de construir algo. Em ambos os casos, a estagnação, a inatividade são o resultado. “Para que se mover se não vale a pena?”. “Para que se mover se não conseguirei alcançar?”.

A situação parece simples. Mas, lembre-se, nos três casos (gestão pelo medo, gestão pelo prazer e na depressão) estamos falando de crenças centrais. Ou seja, de estruturas cognitivas que darão forma para o pensar e para o agir. Então, são estruturas muito enraizadas, muito profundas, nem sempre passíveis de serem mudadas de uma hora para outra ou facilmente. Na maior parte das vezes mudar da gestão pelo medo para a gestão pelo prazer exige treinamentos, palestras, livros, coaching, terapia, auto-ajuda, estamos falando em um processo que pode levar de 3 a 5 anos.

Sair da inércia depressiva, pode levar de 25 a 30 sessões de terapia cognitivo-comportamental bem estruturadas. Mas, mudar completamente a base das crenças nucleares negativas, pode demorar até 10 anos. Claro que, sempre traçamos como meta no processo terapêutico, alcançar a assertividade com a realidade e não a perfeição. Então, dificilmente alguém ficaria mais do que 6 a 8 meses direto num processo de terapia cognitivo-comportamental focando no mesmo problema. Quero apenas, clarear que a mudança nesses padrões exige um processo profundo de mudança na relação com o viver.

Em resumo, a base do movimento da vida é a fuga do sofrimento. E disso, não há escapatória, frente ao não se mover, a escolha é sofrer. Mas, na medida em que a escolha é pelo movimento, se você sofre, correndo do medo, ou se você dança o baile da vida, isso é uma escolha pessoal a partir do momento em que você se decida por fazer diferente: tema ou goze de acordo com a sua escolha.

Raul de Freitas Buchi

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