Gogue, Magogue e papel-higiênico

Em praticamente todos as postagens do meu blog, eu começo com a mesma afirmativa: a vida é sofrimento.

A vida é sofrimento

Isso não é uma afirmativa leviana, pessimista ou simplista, ela é o resultado da reflexão sobre a existência. E mais, não é uma afirmativa minha, ela foi feita, teoricamente, por Buda, 500 AC. E é uma verdade irrefutável.

A senescência, ou o processo de envelhecimento em direção à morte, nada mais é do que caminho de sofrimento. Mas, é um caminho natural de sofrimento: fome, sede, sono, cansaço, desprazer. Quando nada é feito, quando nenhum empreendimento individual é feito para sanar tais sensações, o sofrimento brota.

Assim sendo, a vida é sofrimento.

Construir uma vida frutífera

Tudo o que se pode fazer ou construir a partir daí, é um caminho para a realização do prazer e da bem aventurança. Se nada for feito em contrário, sofre-se, se algo for feito, o sofrimento é sanado. Não cozinhou: fome. Cozinhou: saciedade.

Em períodos do ano ou da vida, aonde as sobras tendem a ser mais longas, outono e inverno, essa sensação de que o sofrimento é eminente passa a ser palpável. É como se pudéssemos perceber no ar uma certa frequência ou radiação que nos deixa alertas para a chegada da dor.

Para os cristãos, ou para aqueles que, como eu, são criados no mundo cristão mesmo não sendo um, essa sensação é ainda mais vívida. Aguardamos ansiosamente a chegada do sofrimento final e definitivo. Aguardamos a realização da profecia das profecias. Esperamos, mesmo que involuntariamente a concretização das palavras de Pedro (acho que é o Pedro) em seu Apocalipse.

Apocalipse

Já há mais de 1500 anos o ocidente tem em seus líderes, inspirados cristão, mais ou menos fervorosos, mas inspirados cristãos. Isso é muito interessante, como cristãos esses governantes olham para o presente e para o futuro. No futuro próximo, a garantia da comida e do teto. Mas, no futuro distante, a chegada do apocalipse.

Vemos isso projetado em infinitos filmes de Hollywood. Vemos isso projetado em diversos livros. Vemos isso repetidamente sendo reforçado pela produção cultural do país mais fundamentalista do cristianismo: os EUA. Claro, eles são cristãos, mas não são idiotas, então, quando assistimos ou lemos essa produção cultural, não vemos um combate entre o ocidente e Gogue e Magogue. Mas a projeção dessa referência contextualizada em “inimigos” contemporâneos.

Gogue e Magogue

Para quem não sabe, Gogue e Magogue seriam povo do oriente bárbaro que trariam a guerra e iniciariam o fim de mundo. Quando o cristianismo se propagou pela Europa, foram os textos do apocalipse, anunciando a queda de Roma quem deram o impulso para a nova fé. E, com a assunção do cristianismo no Império Romano, foram a inspiração de seus governantes até o seu fim, no Século XV, com a queda de Constantinopla.

O apocalipse nunca veio.

Americanos

Mas os cristãos não desistem de tentar encontrar esses inimigos que derrubarão o império Romano (mundo cristão). Levando em consideração os americanos, podemos fazer uma lista deles: os nativos americanos, os ingleses, os germânicos nazistas e fascistas, os comunistas, os vietnamitas, os japoneses, os comunistas, os chineses…

Suíços

Moro num pequeno país europeu, fundamentalista cristão. Tão fervoroso na tal da fé que, em 1500 foram os propagadores da Reforma Protestante e, pegaram em armas para lutar contra os católicos papistas.

Aqui, não se veem inimigos contemporâneos, inimigos contextualizados por todos os lados, como fazem os americanos. Aqui espera-se o apocalipse pela peste e, portanto, procuram-se profilaxias.

O controle

A principal delas é o controle. Na Suíça, municípios sabem absolutamente tudo sobre seus moradores. Na Suíça, tudo é pavimentado, cronometrado, catalogado, tabulado e, principalmente, público.

Ninguém sabe sobre o que rola dentro da sua casa, mas sabem quanto dinheiro entra e quanto sai. Nas pequenas comunas e nas grandes cidades, a vida é como uma vida no interior, todo mundo sabe de todo mundo.

Vantagem, a Suíça é o país mais seguro do mundo, com a segunda maior qualidade de vida. Desvantagem, não da para ser criminoso ou contraventor com facilidade. Mas, não se perde a intimidade, ninguém invade a privacidade. Ninguém vem sem avisar e ninguém entra sem tocar a campainha.

Mas, tentando adiar o fim do mundo, tudo é tabulado.

A vida é sofrimento e a senescência é seu caminho natural. Então, o fim chegará.

Contos de fadas

Não acredito nisso e nem estou pregando sobre isso. Aliás, acho isso uma coisa boba, típica da cultura judaico-cristã. Se você for Hindu ou Budista, isso nem faz sentido. Se houver um fim, ele será um recomeço, então, faz parte. Se for ateu, e tiver se esforçado para mudar essas crenças nucleares, isso não será mais do que um conto da carochinha.

A identificação

Mas, em épocas difíceis, essa sensação sombria que acompanha a escuridão cristão se espalha e, um frenesi toma conta de todos. A idiotificação é um processo seletivo, organizado e veloz. Explico por exemplos:

Na quarta-feira, dia 11 de março, teve-se o prenúncio de que poderia haver um bloqueio na Suíça. Não era quarentena, não era toque de recolher. Apenas um bloqueio de um mês. A Suíça muito democrática, discutia essa possibilidade.

As pessoas partiram em um frenesi para os mercados comprar o estoque para o qual foram preparadas durante 50 anos de guerra fria, o estoque do apocalipse. Enlatados e não perecíveis se esgotaram nas prateleiras e, no frenesi, também o papel-higiênico.

Papel higiênico

Uma minoria da população (um grupo seleto) dirigiu-se ao mercado, fizeram filas nos caixas para pagar, estacionaram nas suas vagas demarcadas, e, em menos de 6 horas, esgotaram o papel-higiênico.

A idiotificação de um grupo seleto, organizado e veloz.

Não estávamos na eminência de um ataque nuclear. Era um vírus, uma gripe veloz, voraz e assassina. Mas não iríamos para abrigos nucleares, nos dias seguintes teríamos mercados abertos.

Mas, a crença de que o fim do mundo está chegando está sempre como um pano de fundo na mente de todo acidental normal. Assim, após vários dias de relatos sobre a Itália, quando a notícia de um possível bloqueio chegou, a crença no fim do mundo assumiu o comando desses grupos seletos e organizados, gerando uma reação exacerbada, se não cômica.

Discos voadores

Nós, os ocidentais, somo envenenados por essa certeza de que tudo acabará em fogo, em peste e sei lá mais o quê. Mas, não há, não haverá um fim de mundo. Todos nós morreremos e isso é certo. Cada um ao seu tempo, cada um de nós deixará de existir. Se teremos outra vida, se vamos para o céu ou inferno, isso cada um com seu conto de fadas decide.

Mas, morreremos todos, inexoravelmente.

Mas, não há fim de mundo. O apocalipse nunca chegará.

Os americanos também gostam de tabular as coisas. E pasmem, há uma correlação entre nível de escolaridade e crença no apocalipse, há uma relação entre nível de escolaridade e fundamentalismo religioso. Assim como há uma correlação entre esquizofrenia e a crença em discos voadores (não estou falando em vida em outros planetas, mas discos coadores que vem sequestras pessoas no Texas e em Minas Gerais).

O esforço para ser ignorante

Sim é preciso um certo grau de ignorância escolar para poder-se acreditar em um deus que mata e castiga aqueles que ele criou e cuida. É preciso de uma certa dificuldade em perceber que esse conto do apocalipse é contado há 1300 anos e não se concretizou. É preciso se esforçar muito para não saber que os cristãos tinham certeza de que o mundo acabaria no ano de 500, depois no ano de 1000, depois em 1500, depois nos anos 2000.

É preciso sofrer de uma ignorância profunda e voluntária para não ver que a vida floresce até no vão de tijolas e frestas no asfalto. É preciso aplicar esforços imensos para destruir a própria autocrítica e correr aos mercados fazer estoque de papel higiênico.

Mesmo que fosse o apocalipse, vai morrer de cu limpo? Qual a ideia? Acender fogueiras contra o vírus? Jogar papel higiênico cagado no vírus?

O sofrimento é certo e a morte inexorável, mas será de cu limpo.

A existência

Mas, o fim do mundo não veio, não virá, isso é conto de fadas. A vida persiste e a existência transcende a própria vida. Assim, mesmo quando a morte chegar, há uma continuidade de si na prole que segue e, caso ela seja exaurida, a vida persiste e, se mesmo assim ela acabar, a existência, a energia em forma de matéria, transcenderá a extinção da vida.

Precisamos entender a simplicidade disso. Precisamos entender o que a ciência básica nos ensina. Não somos eternos como indivíduos, mas existimos como vida por um tempo perene e intenso (do nosso pontinho minúsculo de vista) pois somos mediados por emoções e sentimentos. E eles são intensos, nos dão uma grandeza de sensações e experiências. Somos, cada um, uma experiência única e absolutamente fantástica da existência.

A ciência é a resposta

Mas isso não nos da grandeza. Continuamos minúsculos mesmo quando juntados aos bilhões. Isso não nos dá grandeza, só nos mostra que se minúsculos como somos, existimos como uma experiência única e fantástica, imagine como deve ser o resto?

Imagine se pudéssemos deitar em uma praia e sentir na pele a aproximação dos raios solares, das brisas refrescadas pelo mar, ou a força do oceano em uma simples onda.

Imagine se pudéssemos ver uma foto do nosso planeta a partir da lua, imagine se pudéssemos reconhecer outros planetas no céu noturno. Imagine se pudéssemos ver fotos dos anéis de saturno.

Idiotificação II

Nem sonhe com isso. Num ocidente terra-planista, enquanto nossos conterrâneos ocidentais correm comprar papel higiênico até acabar o estoque (“no céu só eu terei o cu limpo”), os “inimigos chineses” constroem hospitais imensos em 10 dias para os seus iguais. Onde está a república, a democracia e a liberdade. Magogue constrói hospitais, os cristãos…

A escola é a reposta

A falta de escola consome o nosso coletivo, transforma o coletivo em uma massa sem identificação com seus pares. Voltamos a usar clavas e a rugir quando o estranho nos aparece, brigamos por um pedaço de carne. Cristão que entregam a fome aos seus iguais. Magogue constrói hospitais e doa equipamentos.

Mas teremos estoque de papel-higiênico para 10 anos. Então, nada com que se preocupar.

Raul de Freitas Buchi

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