Gratidão pela vida

Uma das vivências imperdíveis para a vida é a gratidão. Ela inclusive está bem na moda, tem espaço no TED, nas igrejas e até quem diria, na psicologia!

Ela não deriva da visão barata do “copo meio cheio ou meio vazio”, mas da conclusão realista de que o simples fato de se viver, é de se maravilhar. Seja por uma visão criacionista ou evolucionista, o milagre da vida assenta-se no fato que, por obra de um algo, coincidências eletroquímicas ou um deus benevolente, em algum momento, a vida tornou-se e, a partir daí, explodiu e proliferou.

Nesse ponto de vista, a visão evolucionista me parece muito mais atrativa. Ela incluiria um início explosivo para o universo, uma acomodação cosmológica da matéria, e a organização da atmosfera e dos líquidos para que a vida, aqui no planetinha, fosse possível de acontecer.

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 Aparentemente, foram mais ou menos 8 bilhões de anos para que a matéria conseguisse se acomodar nas condições eletroquímica perfeitas. Assim, pequenos aglomerados proteicos puderam começar a se organizar e, então, passar mais 8 bilhões de anos melhorando suas habilidades em relação ao ambiente para poder, nos últimos 10 mil anos chegar aonde chegamos.

É uma jornada tão incrível, tão absurda que, se não fosse a explicação mais próxima da realidade, não seria crível nem aceitável. Aparentemente nada, nem ninguém esteve no controle desse processo e, por isso, em partes, a vida como nós a entendemos, só foi possível nesse planeta. Assim, mesmo havendo uma infinidade de galáxias, estrelas, planetas e matéria, apenas no nosso planeta a matéria coincidiu de se organizar de forma tão favorável para a vida.

Claro, não vamos bancar os deslumbrados. Até 10 mil anos atrás, a vida era o mais forte caçando o mais fraco. Ou seja, a vida não é um mar de amor e tolerância. Desde o triunfo do o homem sobre a natureza e os deuses, e o consequente surgimento da cultura, a coisa piorou, a ganância pelo poder (e é tudo exclusivamente por poder), a fome, a peste e a dor imperam entre os iguais.

Mas, vamos pensar de forma menos genérica e de forma um pouco mais individual. Vamos pensar nas condições individuais de enfrentamento das dificuldades diárias impostas pelo processo de viver.

Você nasceu e, em seguida começou a resolver problemas. Isso é o básico da vida humana: não existem privilégios, toda a vida é difícil. Você nasceu e teve que se virar para mamar, andar, correr, chorar, falar, entender o que era dito. E, provavelmente, até hoje, seja lá quantos anos você tem, sua vida é resolver problemas na realidade, no mínimo, pagar boletos e emagrecer.

Mas, a evolução tratou de desenvolver as condições adaptativas adequadas (com 80% de acerto) para o enfrentamento da realidade. Claro, estamos falando do biológico, se levarmos em conta o psicológico, provavelmente você é um sociopata ou uma vítima crônica da vida e esse texto nem faz sentido para você. Mas, pense que você, por um momento, tem estabilidade psicológico/emocional e, em função disso, consegue tirar algum proveito de suas condições biológicas favoráveis.

Respirar, hidratar-se, alimentar-se, dormir e evacuar. São 5 os eventos biológicos que precisam estar em perfeito funcionamento para que você esteja trafegando sua existência em todo o seu potencial. O psicológico pode explodir com todos eles, em geral a depressão, o alcoolismo e a ansiedade são as principais patologias para atrapalhar os cinco elementos. Mas, se os 5 estiverem funcionando bem, você terá condições plenas de enfrentar a realidade e resolver todos os problemas que se encontrem na faixa atmosférica para a qual fomos desenvolvidos para viver.

Então, viver no Everest ou sob o mar, é só para pessoas específicas e não há coaching que te possibilite viver lá. Nesses lugares não ter ar, não se respira. A manutenção desses 5 elementos é tão importante que, 70% de toda a luta de poder que o homem cria, é em função de controlar esses 5 elementos mais o outro e o diamante.

Mas, vamos pensar que, hoje, nem a luta pelo poder (fome), nem a ansiedade (insônia), nem a depressão, nem o alcoolismo estão afetando a sua vida. Vamos pensar que hoje, e só por hoje, existe em você uma aceitação pelas condições da sua vida. Vamos pensar que, só por hoje você não é um escravo Platônico, mas um homem livre. Pelo que você agradeceria?

Seus filhos, seu trabalho, o pôr-do-sol?

O Platão tem um conceito de liberdade que é o mais contemporâneo que existe, mesmo que tenha sido desenvolvido há 2500 anos. Homem livre é aquele que faz o que tem que fazer. Ou seja, o homem livre é aquele que aceita seu destino. Se ele é escravo, ao invés de ficar cheio de crises mentais por isso, ele vai lá e faz, aceita o que é e executa essa vida. Isso vale para o comerciante, para o soldado, para o padre, para a manicure.

Aceitação, acomodação e conformação são coisas diferentes. Platão fala de aceitação, portanto, ele fala do primeiro ponto necessário para o processo de mudança. Se não aceito as dificuldades da vida, se não as recebo, não tenho como resolvê-las ou mudá-las.

Então, são 5 elementos básicos, de fundo orgânico que precisam estar em ordem, mais a aceitação da realidade, por pior que ela seja. Essa é a plenitude da vida. Isso é tudo que a existência tem para oferecer. A manutenção do processo de existir e a aceitação da realidade são tudo que se pode ter da vida e carregar na vida. Todo o resto são condições que se criam em função de demandas criadas além das necessidades.

Com isso quero dizer que, haja um belo pôr-do-sol ou não, se você dormiu bem, sua vida vai ser melhor. Seja arroz e feijão ou sushi, se você adquiriu a quantidade certa de nutrientes, a vida vai ser melhor. O jogo de condições criado pela mente, impede, sempre, uma constatação satisfatória da realidade. Assim, a gratidão pela existência não pode ser alcançada porque sempre há uma nova condição a ser resolvida.

Veja, o que estou dizendo é muito simples: você pode ambicionar o que quiser, mas não deve colocar isso como condição entre você e a gratidão pelo existir.

Existir e viver é difícil, e afirmo isso em todas as minhas postagens. Mas, quando colocamos as demandas mentais como condição para o encontro com a satisfação, criamos uma barreira compulsiva e constantemente inesgotável e intransponível. Cada vez que conseguimos comprar um apartamento novo, começamos a ver o próximo, a cada viagem queremos ir mais longe, a cada carreira de cocaína queremos uma maior e mais pura, a cada onda, queremos uma maior e mais alta.

Criamos a insatisfação pela vida construindo uma relação condicional entre alcançar as coisas e poder estar em estado de satisfação. Coisas que, em geral, vão muito além das necessidades básicas: carro, casa na praia, vestido, smartphone novo…

Quando aceitamos a realidade como condição única, após ter conseguido preencher as necessidades orgânicas, encontramos um estado de satisfação. Simples assim. Se não nada falta, está tudo cheio e a satisfação é automática. Se nada mais é preciso, tudo o que resta é a gratidão pela existência.

A aceitação da realidade como um fato inexorável cria um espaço de entrega e, mesmo frente a exaustão de um dia de trabalho difícil, a gratidão pela relação vida/força para viver, a gratidão surge como uma força apaziguadora e de descontração. Ela constrói a conexão com o “algo mais” trazido pela existência.

Raul de Freitas Buchi

1 thought on “Gratidão pela vida

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