Leitura e a mente

Leia esse post com essa playlist do youtube de fundo: https://www.youtube.com/watch?v=1W4vrgm_5oM

Ler sempre foi o maior dos meus hobbies. Pesco, fotografo, faço trilha, coleciono cartinhas de Magic, mas ler, quadrinhos, livros, encartes, apostilas, sites, bulas… sempre foi meu maior hobby.

Talvez seja pelo automatismo muito próximo ao da audição (você vê as imagens do conjunto de letras e automaticamente busca ou dá um sentido para a imagem, ou seja, lê). Quando minha filha estava sendo alfabetizada, um dia no carro, leu em voz alta uma placa que tinha escrito “peixaria”. Em seguida largou uma pérola inesquecível: “odeio ter aprendido a ler. Agora não consigo não ler as coisas”.

Bom, enfim, essa semana estive pensando sobre como aprendi a gostar de ler e tudo que o gosto pela leitura me trouxe de bom. Boa parte da minha carreira de psicólogo depende do que aprendi nos livros e alfarrábios acadêmicos. Boa parte da minha bagagem intelectual e da minha experiência, do meu repertório para a vida, foi retirado dos livros.

Mas, numa discussão com a minha mãe (ela é sempre tão teimosa e pouco submissa, sempre acabamos discutindo), fui lembrado por ela que, meu gosto por livros começou tarde (para ela claro), por volta dos 13 anos. Segundo ela, antes disso, eu só lia gibis: turma da Mônica, gibis da Disney, e, em seguida, os super-heróis (Batman e Homem-Aranha).

Read here in English!!!!

Mas, resolvi mexer no meu baú e me lembrei de algumas passagens divertidas (se vistas do olhar de hoje). Fiz o ensino fundamental I (o antigo primário) no Colégio Municipal Eny Caldeira, no bairro do Tingui, em Curitiba. Era uma escola modelo na época, tinha merenda boa, dentista, campinho, pátio coberto e, aulas de matemática e ciências com a professora Maria do Socorro.

Ela não era professora de Comunicação e Expressão (língua portuguesa). Mas, como professora de matemática, exigia uma boa interpretação de texto, afinal, precisa-se saber que porras o Pedrinho fez com as laranjas e quem comeu quantas laranjas do Pedrinho.

Eu não sabia dessa necessidade de interpretação de texto. Como um bom papagaio de cabeça oca eu lia, mas na verdade, não atribuía o sentido acumulativo necessários, das palavras que se sucedem em um texto, para que ele possa ter um sentido. Eu apenas fazia o barulho correto das palavras (o que fazia bem, aliás, era um bom leitor), mas passava pelo texto sem apreender seu significado.

Portanto, não fazia a interpretação do texto e, não conseguia, assim, resolver o problema do Pedrinho e suas laranjas.

A professoras Maria do Socorro, num belo dia, plantou-se ao meu lado (eu havia tirado uma nota baixa na matéria dela) enquanto eu resolvia um daqueles problemas enormes que a gente precisava copiar do quadro com letra legível. Ela ficou me analisando e, de cara, percebeu que eu não estava entendendo nada.

Ela leu meu caderno e eu havia copiado tudo certo. Viu que eu havia lido o que eu tinha copiado. Mas, viu que o Tico e o Teco não estavam conversando dentro da minha cabeça. Virou para mim e pergunto: “Raul, o que esse texto diz?”. Imediatamente, comecei a lê-lo para ela. Ela interrompeu (imagine a paciência da professora) e perguntou delicadamente: “o que o texto quer dizer? O que você entendeu dele?”

Meu repertório social é estreito hoje, imagine com 8 anos. Enchi os olhos de lágrimas, um nó gigante na garganta e, o Tico e o Teco trabalhavam freneticamente para não me deixar chorar na frente da turma (que não estava nem ligando para o evento, nem viram o que acontecia).

Gentilmente ela disse: “Nesse parágrafo você tem um problema de matemática, não é isso? Ou seja, ele conta uma pequena história, para que você entenda o que precisa encontrar como resposta, não é? Que história ele conta? Que história está nesse parágrafo?”

Nesse momento, o Tico deu um pulo e o Teco parou de tentar me fazer desaparecer. Ambos olharam para o texto e, no meio das palavras, encontraram uma história qualquer do Pedrinho com suas laranjas.

Ela foi até a caixa onde ficavam os livros da biblioteca da turma, pegou um livro chamado “o escaravelho do diabo” da Coleção Vaga-lume.  “Raul, leia esse livro, todos os dias algumas páginas, sempre tentando entender o que está acontecendo na história. Você vai ter que contar para a turma daqui há alguns dias”.

Ao invés de ler para a turma, embalei com “o beco do Deus-me-livre”, da mesma coleção. Logo, eu conseguia acessar a biblioteca dos meus pais. Na verdade, minha mãe considera o início da minha relação com os livros, o momento em que comecei a ler, o momento em que os livros passaram a ser um assunto possível comigo, um menino hermético e esquisito.

Tanto meu pai quanto minha mãe têm dificuldades em gostar de gibis (hoje em dia, chamam-se comics ou HQ´s). Meu pai, uma época, até falava sobre o Batman comigo. Mas, devia ser um horror para eles: pilhas e caixas de gibis colecionados por mim e por meu irmão. Tintin, Asterix, Homem-aranha, Batman, Wolverine, Luck Lucky, Garfield, Mafalda, Snoopy, Zé do Boné, Hagar, Angeli, Laerte, Glauco…

Mas, foi num Snoopy que eu encontrei um texto que iria dar um sentido para minha vida, e tenho até hoje esse texto copiado 5 vezes em um diário para que eu nunca esquecesse. Meus pais recebiam as Mafalda´s, Snoopies e outros, dos amigos que estavam refugiados fora do país na época da ditadura (aquela que não existiu!?). Dentro de um Snoopy tinha um artigo de 10 páginas sobre a percepção da plateia frente a um evento qualquer.

O texto falava de um teatro já preparado para o espetáculo começar. A plateia preparando-se para ficar em silêncio. Entra um palhaço correndo com um saco na mão, sobe no palco, olha para os lados e corre para a coxia. Em seguida, dois homens fardados fazem o mesmo.

Alguns minutos depois, os relatos da plateia são coletados. Para minha surpresa (talvez com uns 10 anos de idades) as pessoas relatam as coisas mais diversas possíveis sobre o mesmo evento. Tão diversas quanto é possível imaginar: gente que não viu nada, gente que viu uma perseguição com tiros, sirenes e mortes.

Cada um tem uma interpretação diferente do mundo a sua volta. Que coisa louca, demorei dez anos da minha vida para entender que a percepção de cada um é diferente, que não vemos, não entendemos e, portanto, não sentimos o mundo da mesma forma.

Cada um é cada um. E, portanto, não posso presumir que o outro tenha entendido como eu esperaria, muito menos exigir que o faça assim. Não é possível padronizar o humano a partir de linhas medianas. Não há lei, religião, sexo, estado, norma, regra, padrão, que possa traçar uma linha que diga o que é o normal em termos humanos. Não há o normal pelo mais simples dos motivos: cada um é cada um.

Bom, virei psicólogo!

A impressão que me foi causada por esse texto, mesmo sendo tão óbvia, me levou a jornada de tentar entender como é ser cada um. Como é estar no lugar que você ocupa na existência: como você vê o mundo, como você entende esse mundo, como você se vê e se entende frente ao mundo.

Se cada um é cada um, meu ponto de entendimento, meu ponto de vista do mundo não é relativo. Ele é sim, sólido, verdadeiro e, principalmente, imperioso! Ou seja, é um imperativo na minha vida. Mas, por outro lado, o seu ponto de vista, é também sólido, verdadeiro e imperioso na sua vida.

Você já leu aí pelo meu blog que pontos de vista, mesmo sendo um imperativo, podem ser mudados com a mudança das crenças centrais. Mas, isso não os torna menos imperativos sobre a vida, quando o outro ponto de vista começa a guiar o comportamento, ele passa a ser o imperativo.

Mas, você tem o seu e eu tenho o meu e nenhum é relativo e, ambos são imperativos. Uma tentativa de misturar os dois, uma tentativa de mesclar os dois é tentar relativizar.

Para explicar isso, gosto do exemplo do café em um casamento: A mulher gosta de café fraco, sua esposa gosta de café fraco. Se elas fizerem café fraco, por gentileza com a esposa, a mulher ficará insatisfeita. Se fizerem café forte a esposa ficará insatisfeita. Se fizerem um café médio, ambas estarão insatisfeitas. A solução é entender o imperativo de cada uma, aceitar as diferenças e fazer dois cafés, um fraco e um forte.

Claro, isso é muito mais trabalhoso. Entender que o outro é em si, uma criatura, um ser, uma entidade única e independente, respeitar isso, é muito trabalhoso. Na verdade, entender isso é tão trabalhoso que levamos 20 anos para chegar na vida adulta, onde deveríamos ter aprendido que o egoscentrismo é coisa de neném. Uma prerrogativa básica do adulto é reconhecer que somos um coletivo formado de entidades únicas.

Assim sendo, reconhecendo que o lixo jogado na rua incomoda os outros passantes, reconhecer que ninguém tem a obrigação de ouvir seus brados bíblicos na rua ou no grupo do facebook.

O coletivo das entidades únicas não te pertence nem é você. São entidades únicas, então, por direito podem achar que bandido bom é bandido morto ou que bandido bom é bandido solto. Mas, também podem achar que, quem decide isso é a lei que rege o espaço coletivo, coordenado pelos profissionais elegíveis para tal: advogados, juízes e promotores.

Parece estranho eu puxar esse assunto em um texto onde escrevo sobre a atividade da leitura e o que pude aprender com ela. Mas, aprendi muito sobre casamento com o Peter Parker (Homem-Aranha, desculpa o spoiler) com a Mary Jane Watson (posteriormente, Watson-Parker).

Todas as noites, ele saía para passear pela cidade pendurado em suas teias. E, ela, adulta, entendia isso e vivia bem com isso apesar dos momentos de solidão. A visão clara de: cada um com seu cada um. O Peter Parker, sempre cheio de auto-piedade, passava horas de vigília pela cidade pensando: “ela não é feliz do meu lado”, “ela merece alguém melhor”, “no teatro e na TV ela conhece homens melhores”.

Nesse momento, o que o super-herói fazia, era atribuir seus imperativos, seus pontos de vista a outra pessoa. E como são imperativos, ele acreditava nesses pensamentos com bastante entusiasmo. Não vou contar o que se passa depois, compre os HQ´s num sebo e leia.

Mas, ali, vendo pela arte do quadrinho a reflexão em paralelo de cada um, ela apoiada com os cotovelos na janela pensando: “meu herói, volte a salvo”, e ele, no quadrinho seguinte, pensando: “eu devia deixar a MJ em paz, assim ela será feliz”. Ela o esperando e ele sendo egocêntrico e infantil. Ela cuidando do seu próprio bem-estar, ele tentando controlar o mundo com o pensamento, como uma criança mimada.

A leitura de um gibi ou HQ não difere da leitura de um bom livro ou da bula de um medicamento. Todos são, de alguma forma, em alguma escala, materiais instrucionais. Experiências descritas em palavras que, com a boa interpretação do texto, podem conter lições importantes para a vida e para formação do repertório individual.

É como se o Pedinho e suas laranjas, a raposa e a uva, continuassem nos trazendo informações que nos ajudam a resolver problemas da vida.

Na saída do desembarque dos voos internacionais no aeroporto internacional de Guarulhos, temos um sem fim de placas informando direções e destinos. Temos uma infinidade de placas informando sobre documentos, regras, produtos, bagagens, destinos… Também temos funcionários de tempos em tempos para dar informações verbais. Mas, o ponto culminante é o conjunto (não reduzido) de funcionários gritando as direções e as instruções para as pessoas que não leram ou não interpretaram as placas.

Graças a professora Maria do Socorro, hoje eu leio Platão e também as placas.

Raul de Freitas Buchi

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