Rancor, ódio e mágoa

Read here the English version.

Frustração, medo, raiva e tristeza são emoções com bases orgânicas tão fortes que, ao redor do planeta, quase todos os mamíferos são capazes de senti-las de forma parecida com o que experimentamos. Essas emoções primárias e seus opostos, satisfação, confiança, amor e alegria, também muito fundados no biológico, são a fonte do nosso encanto com esses bichinhos que nos cercam. Reconhecemos neles a presenças dessas emoções e, sem muito esforço, nos identificamos com o que eles estão sentindo, criamos empatia.

Essas emoções biológicas tem um papel fundamental no nosso dia a dia, é através delas que reconhecemos a significância do que vivemos. Elas dão o tempero da intensidade daquilo que é vivido e nos ajudam a experimentar a tal da empatia.

Todas elas têm um ciclo mais ou menos igual:

O evento acontece – gera um estímulo no corpo – esse estímulo produz uma série de resposta neuroendócrinas – essas respostas neuroendócrinas geram um desequilíbrio orgânico e – a catarse subsequente, gera o retorno do equilíbrio.

No caso da tristeza: vemos uma cena triste – temos reações biológicas (olho cheio de lágrima, nó na garganta, aperto no peito, fraqueza nas pernas e etc.) – choro com soluços – sensação de paz

Esse ciclo gera uma quantidade enorme de energia no corpo, principalmente no caso do medo e da raiva que estão ligados aos mecanismos básicos de fuga e luta, e, portanto, à sobrevivência. Na verdade, é disponibilizada uma bomba de energia no corpo para nos preparar para as explosões musculares implicadas em lutar (bater com muita força) e fugir (correr muito). Nada místico, energia biológica mesmo disponibilizada para nos preparar para gargalhar, chorar, correr, lutar, celebrar e dançar.

Por isso essa noção de desequilíbrio (na chegada do estímulo e na geração de muita energia) e de reequilíbrio após a catarse (depois do choro, dos gritos, das gargalhadas ou de algumas horas dançando), onde a energia é gasta e o corpo volta ao estado de bem-estar básico. Enfim, a catarse, ou descarga, é quem vai ajudar a aproximar o corpo do estado de equilíbrio anterior à presença do estímulo.

Quando não conseguimos expressar o que sentimos com a mesma intensidade gerada pelo estímulo temos uma carga residual. Uma quantidade dessa energia que acaba por ficar disponível no corpo. Em geral, é fácil identificar isso em alguns exemplos:

Dirigindo calmamente pela estrada, um caminhão bate no carro da frente, você consegue frear e ninguém no seu carro sofre nada. Mas, o barulho, as faíscas, o susto geram uma descarga enorme de adrenalina. Contra tudo que se imagina, você não se desespera, pelo menos não imediatamente. Você se concentra, para seu carro e corre ajudar as vítimas do acidente.

Dentro do seu carro, ainda assustados os passageiros gritam e choram, esperneiam e se desesperam. Mas, você se mantém calmo, ajuda as vítimas, chama o resgate. Parece frio e calculista. Quando o resgate acaba de socorrer as vítimas, você senta no seu carro, começa a tremer convulsivamente e chorar alto. Já se passaram 40 minutos do acidente e todas vítimas estão devidamente socorridas, mas, nesse momento você relaxa e aquela carga de adrenalina, que ficou represada, sai violentamente.

Diferente dos seus passageiros, que gritaram e choraram por 5 minutos, você demora horas para se acalmar e parar de tremer. A história repercute no humor da sua semana e, várias vezes você chega a sonhar com a situação. Parece que, como sua resposta emocional foi reprimida para que você pudesse estar calmo, você acaba ficando preso a ela por mais tempo.

Isso não acontece só com o medo ou com vivências tão intensas quanto essa.

Por exemplo, em uma reunião, seu chefe chama sua atenção de forma suavemente constrangedora na frente dos seus colegas. Você não consegue responder na hora, não deve responder ou é só cagão mesmo e não responde. Mas, de qualquer forma, seja qual for a justificativa, você engole o pequeno desaforo, você se reprime e não responde.

A carga de raiva fica guardada, acelera o seu pensamento e, ao longo do dia, mesmo horas depois da reunião encerrada, você continua revivendo mentalmente a resposta que poderia ter dado ao seu chefe. Vai criando um processamento mental da raiva que, gradativamente, dia após dia, vai se transformando em ódio pelo chefe.

Se fosse tristeza, se transformaria em mágoa. Se fosse frustração, se transformaria em rancor.

A questão é que, se você não expressou o que precisava, o sofrimento vai durar mais, o desequilíbrio vai transformar as emoções primárias e saudáveis em emoções secundárias, estritamente mentais e neuróticas. Vai transformar você naquela vizinha amargurada e rancorosa, talvez cheia de auto piedade.

E não há ponto de fuga. É preciso controlar a expressão emocional. Não se pode sair por aí gritando cada vez que se tem raiva, ou chorando descompassadamente cada vez que se está triste. Nem faz sentido isso. O mundo não comporta uma pessoa que vive em estado de catarse contínua.

Controlar-se, domar-se é parte do contrato social. Saber lidar com as próprias emoções de forma estratégica e útil é parte desse processo de convívio no espaço cultural comum. Mesmo que você ache que tem razão, ninguém é obrigado a ouvir seus gritos, acolher sua raiva ou dar ombro para suas lágrimas.

Mas, amargurar-se e selar-se no silêncio parece uma opção bastante desconcertante e pouco digna. Mas, é uma estratégia a ser pensada.

A maior parte das emoções que sentimos não vem de estímulos externos gerados pelo ambiente, mas de estímulos internos gerados pelo próprio processo de pensar. Em verdade, mesmo a intensidade dos estímulos, quando eles são externos, é alterada (geralmente intensificada) pelo pensamento. Assim, com essa visão, é fácil entender que a descarga ou a catarse acaba sendo uma responsabilidade do próprio pensamento e não do ambiente.

Então, enfim, em geral, o ambiente não merece a resposta emocional que você está preparado para oferecer. Basicamente porque a maior responsabilidade pela emoção que você sente é da sua própria mente. Ela distorce, intensifica e cria situação virtuais que geram essas emoções e, portanto, controlar-se é fundamental.

Raul de Freitas Buchi

Deixe uma resposta