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De alguns anos para cá, graças a literatura de autoajuda, temos a impressão de que recomeçar é a primeira etapa após o fracasso. Mas essa é uma percepção um pouco distorcida. A literatura de autoajuda tem a função social de ajudar a reescrever situações difíceis para que elas se tornem mais aceitáveis ou contornáveis. Isso que dizer que ela tenta normatizar os eventos complicados da vida mostrando o quanto eles fazem parte do próprio viver.

Por outro lado, a linguagem do coaching e dos profissionais que dão consultoria sobre a vida usa bastante essa expressão “recomeçar”. Também, como na autoajuda, esse recomeço é associado a um fracasso anterior ao processo de recomeçar. Portanto, para ambas, o recomeço não é um evento rotineiro, mas algo que sucede a derrota, o fracasso.

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Os pontos de Vista

Quando olhamos do ponto de vista da psicologia, o recomeço não é e não poderia ser algo atrelado à sequência de um evento negativo. Quase como um oposto as visões mais baratas e comerciais, a psicologia entende o recomeço como parte inerente e constante do viver e do crescer. Para a psicologia o recomeço é presente na vida como são o dia e a noite.

Portanto, viver é um eterno recomeçar. Aliás, dois exemplos bastante simples dessa ideia são a respiração e o dia. Esses dois eventos cíclicos são repetidos num eterno recomeço, ao mesmo tempo em que são a ligação mais forte que temos com a própria sensação de existir. A respiração que se repete a cada dois ou três segundo, recomeçando seu processo, seja expirando ou inspirando o ar da vida. E os dias marcando nosso tempo na vida.

Engraçado é que você pode escolher qual deles seria o recomeço para você. A respiração recomeça após a inspiração ou após a expiração?

O eterno revezamento

O mesmo, vale a para o eterno revezamento entre o acordar e dormir. A cada despertar temos um novo recomeço, ou a cada anoitecer temos um novo começo, já que, em termos cronológicos, o dia começa no meio da noite.

Como nesses dois exemplos, a psicologia aplica a noção de recomeço para todas as atividades da vida. Recomeçamos o tempo inteiro. Enquanto escrevo, recomeço palavras, frases, parágrafos, textos e, nenhum desses recomeços é antecedido por uma derrota ou fracasso. Recomeçar é parte do ciclo da vida.

Aliás, para a psicologia, a noção de fracasso perece muito fugaz e quase inexistente. Essa ideia de fracasso ou até de derrota, tecnicamente não existe. Temos os conceitos de luto e de perda. Mas, derrota e fracasso são conceitos importados de áreas específicas e usados largamente na literatura de autoajuda e de coaching.

O combate

A derrota vem da ideia de combate, seja no esporte ou na batalha. Vem de uma noção de competição física, aonde o que se sai melhor no confronto é tido como vitorioso e o que se sai pior é o derrotado.

Na psicologia essa noção não é aplicável. A vida é longa e seu design, seu trajeto não é sabido. Portanto, é dinâmico, aberto e inseguro. A vida não é uma competição e, essa noção de competição e derrota, importada da Roma e da Grécia antiga, é exatamente o que cria o egoísmo. A vida é um processo e seu fim é a extinção da existência. Portanto, não há um fim, uma linha de chegada que permita dizer quem chegou primeiro, melhor ou mais rápido.

Baseada nessa ideia de que quem tem uma situação de desvantagem é derrotado, fugimos ou agimos como se não dependêssemos em tempo integral da colaboração. Assim, tornamo-nos pessoas que se apropriam, roubam, matam para vencer. Fazemos de tudo para vencer uma competição que não existe na realidade, corremos para vencer uma competição que é criada pelo atrito social entre os que ambicionam e os que estavam distraídos vivendo e usufruindo.

O Fracasso

Já a ideia de fracasso, vem do conceito de “fraco”. O fracasso é a realização atingida pelos fracos, é aquilo que os fracos realizam. Movidos por sua fraqueza, eles não conseguem alcançar aquilo a que se propõem e, portanto, constroem seus fracassos. Mas isso não é necessariamente uma situação ruim, na medida em que o ponto do qual se avalia a situação é que determina o que é o fracasso, o que não é suficiente

Para que se possa fracassar é preciso saber o que seria o sucesso. Tendo esse parâmetro de sucesso em vista, não ter força, ou ser fraco demais para poder alcançar esse sucesso, cria o fracasso.  Então, o fracasso seria qualquer etapa entre o nada e alguns degraus antes do sucesso. O sucesso seria alcançar o todo. Tudo o que foi construído fora desse sucesso seria o fracasso.

“vendemos 80% da meta, não obtivemos o sucesso esperado, o gerente foi demitido por seu fracasso, apesar dos resultados razoáveis”.

Isso significa que todos esses 80% são fracasso, enquanto aquele 20% que representaria a saída dos 99% para 100% seriam o sucesso. E o mais maluco é que levamos isso bastante a sério na vida. Bastante. Chegar em 2º lugar é igual a fracassar.

Sucesso e fracasso

Essa relação entre sucesso e fracasso é tão tênue, é tão relativa, é tão individual que já vi alunos “nota 10” tristes por tirarem 10 na prova, mas terem escrito na prova com uma letra feia. Por outro lado, vi pessoas terem perdas homéricas na vida e considerarem-se grande vencedores.

Assim, fica absolutamente claro como, recomeçar não é um processo ligado a derrota ou ao fracasso. Muito pelo contrário, a cada venda realizada pela equipe do nosso gerente, houve um recomeço das negociações com os clientes. Em cada questão da prova “nota 10” teve um recomeço de respostas, raciocínios etc. A vida é um eterno recomeço.

Esse eterno recomeço, tão bem representado pelo dia, também pode ser visto claramente nas estações do ano, na passagem das gerações em uma família. Nada disso ligado à derrota ou ao fracasso.

Claro, as plantas perdem as folhas, os animais trocam os pelo, a luz suprime a escuridão. Existe um balanço entre perda e recomeço. Mais do que isso, existe uma relação entre fim e recomeço. Essa relação não é estanque e nem é claramente delimitada. O processo de fim (que pode trazer luto e perda) é sempre um processo que termina já muito adentro do processo de recomeço.

A ressurgência

Por outro lado, o processo de recomeçar se inicia dentro do processo de fim. A ideia da ressurgência da capacidade criadora saindo de dentro do próprio processo destrutivo é o melhor retrato. Isso não é filosofia barata, por mais que possa soar como isso. Mas é um princípio que pode inclusive se encontrado no Tao chinês, o Budismo e outras filosofias orientais.

No cristianismo, um pouco imbuídos pela ideia de um fim de mundo, de um apocalipse, não vemos essa mescla entre fim e recomeço. Mas também pela contagem de tempo a partir de um marco zero ligado a relação de perda e traição com o criador, acabamos tentando separar o fim de sua ressurgência e vice-e-versa. Construímos noções estanques.

Essa noção de que tudo tem sua gaveta, portanto limites claros, organizáveis, cabíveis e ajustáveis, talvez sirva para as coisas materiais, as meias, as camisas, os talheres. Mas quando pensamos na dinâmica dos processos da vida, não há um ponto onde um fim termina e o recomeço inicia. Ambos estão fundidos em um amálgama contínuo e indissolúvel.

O fim de um casamento, de uma relação é algo longo. Pode ser que a saída de um dos amantes da casa que dividiam seja uma coisa marcante, e seja visto como o fim. Mas a relação não acabou ali. Ela vem se deteriorando a dias, talvez meses, talvez anos. E durante esse processo de deterioração, durante esse processo de fim, as idealizações do reinício da vida de solteira(o), vistas de forma negativa ou positiva já estavam presentes.

Rearranjos

Por outro lado, a saída de casa, sentida como o fim, ainda não é o fim, assim como não foi o recomeço. As negociações, os rearranjos, os vasos, discos e cd´s ainda irão e voltarão durante tempo nessa etapa aonde o recomeço já é mais intenso do que o fim.

Outro exemplo simples e bastante corriqueiro dessa amálgama entre fim e recomeço é a troca de emprego. O fim e o reinício começam juntos, no mesmo sentimento, na insatisfação com o local ou com o trabalho. Eles começam grudados. Eles começam quando não é mais possível permanecer no mesmo lugar.

Como no casamento, as coisas atingiram um determinado ponto onde não é mais possível permanecer no mesmo lugar. É preciso mudar. É preciso que esse contrato de trabalho se encerre e um novo recomece.

Assim, durante o processo de fim, o recomeço já está lá. Ninguém pede demissão sem estar procurando ou pensando, planejando um algo novo. Durante, ou talvez antes do início do processo de desligamento, a busca por um novo trabalho já se inicia. E, depois de iniciado o trabalho na nova empresa, alguns telefonemas ainda serão feitos, algumas ações na justiça do trabalho ainda serão realizadas.

Amálgama

O fim e o recomeço são uma amálgama que não passa nem perto da derrota e do fracasso. Eles podem passar pela perda e pelo luto como nesses dois exemplos, mas não passam pela derrota e pelo fracasso.

Nenhum casal se mantém casado só para vencer a corrida de que quem fica mais tempo casado sem amor. Ninguém passa uma vida num trabalho se não houver uma visão presente. Mas, ao fim dessas relações e no recomeço das novas relações, as perdas e os lutos das fantasias, dos sonhos, das expectativas, dos status estão presentes. Mas isso não é uma regra do recomeço.

Nem todo recomeço implica em luto ou perda. Mas, sempre, implica em mudança ou transformação.

Raulde Freitas Buchi